Sindicato da Construção, Geração, Transmissão e Distribuição

de Energia Elétrica e Gás no Estado de Mato Grosso

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Estado enfrenta gargalos na transmissão e distribuição

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Em: 31/08/2026 às 15:39h por Jornal A Gazeta

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Mato Grosso terá energia suficiente para sustentar o avanço da industrialização, o crescimento da produção agropecuária e a expansão demográfica nas próximas décadas? Para especialistas e representantes dos setores produtivos ouvidos na 3ª reportagem da série semanal de especiais sobre as eleições que o jornal A Gazeta publica até o pleito em outubro de 2026, a resposta depende menos da capacidade de geração e mais da velocidade com que o Estado conseguirá ampliar e modernizar sua infraestrutura energética.

 

Atualmente, o território gera o dobro da eletricidade que consome, mas enfrenta gargalos na transmissão e distribuição que ameaçam limitar seu crescimento industrial e agropecuário, além de afetar a demanda residencial no contexto de crescimento populacional. Em 2024 foram gerados 21,8 mil GWh de energia elétrica em Mato Grosso, enquanto o consumo estadual foi de 11,2 mil GWh. Apesar da geração superior à demanda e de uma matriz elétrica predominantemente renovável, diferentes regiões ainda enfrentam limitações para se desenvolver. O principal entrave está na capacidade de transmitir e distribuir a energia.

 

A preocupação aumenta porque a economia mato-grossense avança em ritmo acelerado. Segundo o presidente do Sindicato da Construção, Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica e Gás no Estado de Mato Grosso (Sindenergia-MT), Carlos Coelho Garcia, a demanda elétrica estadual cresce cerca de 50% acima da média nacional. “O principal desafio do Estado é que a gente consiga desenvolver e expandir a infraestrutura elétrica num ritmo suficiente para atender nossas necessidades de crescimento”, afirma Garcia. Mato Grosso não enfrenta um problema de oferta, ele produz energia e exporta excedentes completa.

 

Em determinadas regiões, a falta de capacidade da rede pode impedir a instalação ou ampliação de operações produtivas e o surgimento de novas fronteiras agrícolas. Isso ocorre porque os investimentos precisam ser planejados e priorizados e a expansão da rede para pontos do território com grandes dimensões e baixa densidade populacional teria impacto direto sobre as tarifas pagas pelos consumidores.

 

A Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt) também identifica o problema. Para a entidade, o desafio é transformar a disponibilidade energética existente em segurança, estabilidade, capilaridade e competitividade para as diferentes regiões e atividades produtivas. A indústria considera essencial ampliar a rede trifásica, modernizar a distribuição e reduzir o custo da energia, além de ampliar a autoprodução e facilitar o acesso ao mercado livre para consumidores industriais de baixa tensão.

 

Capilaridade de rede — A expansão da transmissão é apontada como uma das principais carências do sistema energético estadual. Novas linhas são necessárias para desafogar a rede e garantir condições para o crescimento de regiões que ainda não estão plenamente atendidas. A Energisa destaca que a transmissão é fundamental para acompanhar o crescimento da demanda, embora esse segmento não esteja dentro de sua área de atuação como distribuidora. A empresa prevê R$ 9,3 bilhões em investimentos nos próximos anos para expansão, modernização e reforço do sistema.

 

A avaliação é que o planejamento precisa antecipar o desenvolvimento, ou seja, a infraestrutura energética deve chegar antes ou ao mesmo tempo que novos projetos industriais e agropecuários e não apenas depois, com a demanda já instalada. A ordem é considerada essencial pelo presidente do Sindenergia-MT. Garcia defende uma política de organização territorial do desenvolvimento, com a criação e fortalecimento de pólos agroindustriais em locais estratégicos.

 

A concentração de empreendimentos integrados permitiria direcionar os investimentos de forma mais eficiente. O modelo, segundo ele, pode ser observado em regiões que concentram cadeias produtivas complementares, como Lucas do Rio Verde. Uma indústria de esmagamento de soja, por exemplo, pode fornecer matéria-prima para outras plantas instaladas nas proximidades, formando um cluster industrial.

 

Uma das principais iniciativas em andamento é o programa MT Trifásico, realizado pelo governo de Mato Grosso em parceria com a Energisa. Ele prevê R$ 1,4 bilhão para ampliar o sistema trifásico e melhorar o fornecimento de energia em áreas rurais, assentamentos, distritos e outros pontos do interior. Para o Sindenergia-MT, a continuidade do programa deve estar entre as prioridades dos próximos governos.

 

A Fiemt também ressalta que Mato Grosso apresenta inversões de fluxo e necessidade de reforços estruturais, mesmo com geração superior ao consumo. O fenômeno mostra que produzir energia não significa conseguir disponibilizá-la onde e quando ela é necessária.

 

Por meio da geração distribuída são ofertados 2,8 GW no Estado e com potencial para ultrapassar 3,5 GW em 2030, enquanto a demanda máxima projetada é de 3,2 GW. Ao mesmo tempo, há excedentes de geração solar em determinados horários e aumento da demanda noturna em polos de irrigação. O cenário exige uma rede mais flexível, moderna e preparada para diferentes padrões de produção e consumo.


BIOMASSA, BIOGÁS E NOVAS TECNOLOGIAS

 

Se o desafio imediato está na infraestrutura, as oportunidades para Mato Grosso estão na diversificação da matriz energética. O Estado reúne vantagens competitivas que podem colocá-lo entre os protagonistas da transição energética brasileira, como grande produção agropecuária, disponibilidade de resíduos e biomassa, expansão das fontes renováveis, produção de biocombustíveis e presença de minerais estratégicos.

 

Para o engenheiro eletricista e doutor em Sistemas de Energia Ivo Leandro Dorileo, o setor vive uma corrida tecnológica que envolve baterias de longa duração, automação de redes, combustíveis à base de hidrogênio e usinas hidrelétricas reversíveis. Mato Grosso, segundo ele, possui uma base importante para aproveitar essas oportunidades, especialmente no segmento de etanol de milho e cana. O Estado também pode desenvolver projetos de hidrogênio verde produzidos a partir da biomassa e avançar em tecnologias de armazenamento e geração reversível.

 

Entre as alternativas com maior potencial estão os biocombustíveis avançados de 2ª e 3ª geração. A infraestrutura instalada de usinas de etanol e biodiesel pode favorecer a transformação dessas unidades em biorrefinarias integradas, capazes de processar grãos e produzir múltiplos coprodutos de baixo carbono.

 

Os resíduos agroindustriais também podem ganhar novas funções, a biomassa pode contribuir, por exemplo, para a secagem de grãos, considerada um dos gargalos da agroindústria. Dorileo cita, ainda, o potencial do biometano. Uma rede de dutos abastecida por combustível produzido a partir dos resíduos da suinocultura poderia atender parte importante da agroindústria das regiões Médio-Norte e Norte de Mato Grosso.

 

O Estado também possui minerais estratégicos utilizados pela indústria eletroeletrônica e considerados fundamentais para a transição energética, entre eles ouro, neodímio, cobre, níquel e manganês. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec) está concluindo o Balanço Energético de Mato Grosso, estudo que pretende mapear onde e quanto cada região consome e produz de energia. As informações deverão orientar os investimentos dos próximos dez anos e ajudar no planejamento de novas frentes.

 

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

 

Mato Grosso possui uma matriz elétrica limpa e é grande produtor de etanol e biodiesel. Mesmo assim, é dependente de combustíveis fósseis, especialmente em setores como o transporte. O resultado é paradoxal, pois, além disso, o Estado exporta energia renovável, mas ainda depende, em diferentes atividades, de combustíveis trazidos de fora.

 

Para o presidente do Sindenergia-MT uma das prioridades deve ser acelerar a substituição dos combustíveis fósseis por alternativas mato-grossenses, como biometano, biodiesel B100 e etanol.

 

A proposta inclui a criação de corredores sustentáveis para estimular a substituição do diesel nas frotas pesadas por combustíveis renováveis e, em determinadas situações, pela eletromobilidade. A Fiemt defende a diversificação das fontes e o incentivo ao uso de biomassa, biogás, biocombustíveis, bioenergia, fontes renováveis, armazenamento e outras tecnologias de baixa emissão de carbono. Para a entidade, a transição energética precisa ocorrer sem comprometer a segurança do abastecimento e a competitividade da indústria.

 

No gás natural, o desafio também está na distribuição. O gasoduto do Distrito Industrial de Cuiabá possui 39 quilômetros e está em operação desde julho de 2025, com capacidade para fornecer até 186 mil metros cúbicos (m³) por dia às indústrias da região. Entretanto, a capacidade de transporte disponível é maior. O Gasoduto Lateral Cuiabá possui capacidade de 2,8 milhões (m³) diários. A diferença evidencia a necessidade de ampliar a infraestrutura para que o gás chegue a mais consumidores e regiões.

 

BIOMASSA

 

Outro aspecto essencial para transição energética é a ampliação da oferta de biomassa sustentável. Para a Associação dos Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta), o Estado precisa criar condições para aumentar os investimentos em florestas plantadas. O presidente da entidade, Fausto Takizawa defende a criação de estruturas de crédito ou fundos específicos, além de segurança jurídica para atividades de longo prazo, como a silvicultura.

 

Segundo ele, Mato Grosso possui instrumentos como a reposição florestal e o Plano de Suprimento Sustentável (PSS), mas o desafio é garantir a aplicação eficiente dos mecanismos existentes. Para os grandes consumidores de biomassa, o PSS pode ser exigido como condicionante do licenciamento, garantindo maior controle sobre a origem da madeira utilizada.