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Mercado livre entra em nova fase e amplia disputa pelo consumidor de energia

Em: 26/05/2026 às 11:23h por Canal Energia

Com abertura gradual prevista em lei e avanço acelerado da migração, setor passa a combinar energia, gestão de risco e serviços financeiros em um ambiente cada vez mais competitivo

 

A abertura do mercado livre de energia no Brasil entrou definitivamente em uma nova etapa de crescimento e diversificação de consumidores. O ambiente competitivo de compra e venda de eletricidade, que durante décadas permaneceu praticamente restrito a grandes indústrias, agora avança rapidamente sobre segmentos comerciais, pequenas empresas e, em breve, consumidores residenciais.


Os dados mais recentes divulgados pela CCEE e pela Abraceel ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo a associação, o mercado livre respondeu por cerca de 42% de toda a energia consumida no país em 2025, movimentando aproximadamente R$ 283 bilhões no período.


A expansão continua acelerada, sendo que apenas no ano passado, quase 19 mil novas unidades consumidoras migraram para o ambiente livre, levando o setor a ultrapassar 83 mil consumidores.


Os consumidores varejistas — modalidade em que um agente comercializador representa o cliente junto à CCEE — também ganharam espaço rapidamente. Em setembro de 2025, eles já representavam 46% do total de consumidores livres, contra apenas 11% em janeiro de 2024. O crescimento ocorre em praticamente todas as regiões do país. São Paulo liderou o número de novas adesões em 2025, seguido por Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.


A participação do mercado livre também já se tornou predominante em segmentos importantes da economia. Em novembro de 2025, 95% da eletricidade consumida pelas indústrias brasileiras foi contratada nesse ambiente competitivo. No comércio, a fatia chegou a 47%.


Outro dado relevante envolve a forte presença das fontes renováveis. Segundo a Abraceel, o mercado livre absorveu 91% da geração solar centralizada, 62% da energia eólica, 92% da biomassa e 57% da energia proveniente de pequenas centrais hidrelétricas.


Na prática, o ambiente livre vem se consolidando não apenas como instrumento de competição comercial, mas também como principal vetor de expansão das energias renováveis no Brasil.


Pequenos negócios e residências


O principal motor regulatório dessa transformação é a Lei nº 15.269/2025, sancionada em novembro do ano passado e considerada o novo marco da abertura do mercado livre brasileiro. A legislação estabeleceu um cronograma gradual para universalizar o direito de escolha do fornecedor de energia elétrica.


Até então, o mercado livre era acessível basicamente aos consumidores conectados em média e alta tensão — o chamado Grupo A. Agora, a abertura avançará sobre consumidores de menor porte.


Pela nova regra, consumidores comerciais e industriais atendidos em baixa tensão poderão migrar para o mercado livre a partir de novembro de 2027. Isso inclui supermercados, farmácias, clínicas, pequenas indústrias, shoppings e diversos outros estabelecimentos comerciais.


Já os consumidores residenciais deverão conquistar esse direito a partir de novembro de 2028, conforme estabeleceu a legislação publicada e 25 de novembro de 2025.


Segundo a Abraceel, a mudança poderá colocar o Brasil na vice-liderança mundial em liberdade de escolha de energia elétrica, atrás apenas do Japão.


A legislação também criou mecanismos considerados essenciais para garantir estabilidade ao processo de abertura.


Entre eles está o chamado Supridor de Última Instância (SUI), mecanismo destinado a assegurar continuidade do fornecimento caso uma comercializadora encerre operações ou enfrente dificuldades financeiras.


O tema ganhou importância especialmente após episódios recentes envolvendo comercializadoras que enfrentaram problemas de liquidez no mercado livre.


Energia deixa de ser apenas commodity


Na avaliação de Gustavo Cintra, diretor responsável pelo portfólio de energia do BTG Pactual, o avanço da abertura está mudando profundamente o perfil do consumidor de energia no país.


Segundo ele, o mercado deixa de ser um ambiente dominado exclusivamente por grandes indústrias com equipes técnicas especializadas em contratação energética.


“O novo consumidor é diferente. Antes, as empresas que migravam tinham estrutura técnica robusta e experiência regulatória. Agora o mercado passa a receber consumidores menores e, futuramente, residenciais”, afirma.


Para Cintra, o principal desafio da próxima etapa será justamente tornar esse ambiente mais simples, previsível e acessível.


“A abertura já está definida em lei. O que o mercado precisa agora é entender como ela vai funcionar na prática e quais mecanismos darão segurança aos consumidores”, afirma.


Na avaliação do executivo, uma das maiores mudanças em curso envolve justamente a forma como a energia passa a ser percebida pelas empresas.


Historicamente, o principal argumento comercial das comercializadoras sempre foi o desconto tarifário em relação ao mercado regulado. Segundo Cintra, isso tende a mudar.


“O desconto não pode mais ser o único atrativo. O consumidor quer previsibilidade, estabilidade, gestão de risco e suporte. Energia passa a fazer parte da estratégia financeira das empresas”, afirma.


Ele compara a transformação do setor ao processo vivido pelo mercado de telefonia após a abertura da portabilidade numérica.


“As empresas que sobreviveram não foram necessariamente as mais baratas, mas as que agregaram serviços, relacionamento e experiência ao cliente”, diz.


Gestão de risco ganha protagonismo


Na visão de Cintra, o mercado livre brasileiro caminha para incorporar cada vez mais conceitos típicos do sistema financeiro.


Segundo ele, temas como hedge, previsibilidade tarifária, exposição de portfólio e proteção contra volatilidade passam a ganhar peso crescente nas decisões corporativas relacionadas à energia.


“Empresas exportadoras já entenderam há muito tempo que câmbio não é apenas custo operacional. Elas fazem gestão de risco. Energia começa a caminhar para a mesma lógica”, compara.


Esse movimento também ajuda a explicar o avanço de instituições financeiras dentro do setor elétrico.


O BTG Pactual, por exemplo, atua há mais de uma década em operações ligadas à geração, transmissão, comercialização e financiamento de projetos energéticos. Aproximadamente 10% da energia comercializada no Brasil passa atualmente por estruturas ligadas ao banco.


Além da comercialização, o grupo atua em crédito corporativo, financiamento para geração distribuída, estruturação de operações e investimentos em ativos energéticos.


Na avaliação de Cintra, a tendência é que energia deixe de ser tratada apenas como despesa operacional. “Cada vez mais, energia estará conectada à estratégia financeira e operacional das empresas”, afirma.