Sindicato da Construção, Geração, Transmissão e Distribuição

de Energia Elétrica e Gás no Estado de Mato Grosso

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Estudo conclui que MMGD ainda tem impacto limitado no país

Em: 23/02/2026 às 13:49h por Canal Energia

Metodologia empregada em estudo da ABGD avaliou dados a partir do banco georrenferenciado da Aneel e mostra que apenas 4% dos alimentadores estão pressionados

 

O Brasil está muito próximo de alcançar a marca de 45 GW em potência instada na modalidade de geração distribuída. Os dados são da Agência Nacional de Energia Elétrica, atualizados na tarde desta sexta-feira, 20 de fevereiro. Apesar de chegar a esse patamar, um estudo feito a pedido da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) aponta que ainda há espaço para a expansão da modalidade. Segundo os dados do levantamento, apenas 3% a 4% das redes secundárias do país, que são as primeiras afetadas pelos sistemas, precisam de investimentos para serem adequadas à injeção de energia. Essa é a principal conclusão obtida e apresentada à Agência Nacional de Energia Elétrica.


O encontro ocorreu no início do mês em Brasília e está no âmbito das regras previstas pela Lei 14.300, que traz o marco regulatório dessa tecnologia. A meta da associação foi a de se adiantar ao processo de discussão sobre a valoração dos custos e dos benefícios. Ou seja, a análise do estudo realizado aponta que a modalidade ainda não tem impacto sobre o país. A Aneel abriu consulta sobre o tema no início de dezembro.


De olho na base

A metodologia empregada, explicou o professor e conselheiro da associação, José Marangon, envolveu um conceito bottom-up. Ou seja, mudar o olhar das análises feitas até o momento que avaliavam a MMGD a partir do macro. Segundo ele, agora a entidade observou os dados a partir dos alimentadores, que estão no nível de distribuição em todo país. A base de dados utilizada foi obtida a partir da própria Aneel com seu banco georreferenciado. Além disso, agrupou redes representativas para reproduzir, estatisticamente, a realidade do sistema elétrico brasileiro e evitar distorções quando se analisa casos isolados.


“Nossa ideia é a de mostrar que a modalidade de MMGD tem sim seus benefícios. Eles têm que levar isso em consideração na hora de fazer o chamado encontro de contas. Tem que analisar caso a caso e não generalizar”, comentou Marangon.


Dessa forma, foram utilizados, aproximadamente, 27 mil alimentadores de rede primária e quase 6 milhões de redes secundárias em todo o país. O trabalho foi desenvolvido ao longo de quase 2 anos pela MRST Consultoria e Engenharia. Participaram ainda especialistas do setor elétrico e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Essa metodologia, disse ele, acaba com a ideia do chamado número mágico de cerca de 5% de GD na matriz é um número que a partir daí se pode considerar mudanças. Essa análise era muito comum quando do início das discussões da revisão da REN 697. Entretanto, Marangon classificou como apenas um chute de penetração da GD e que é necessário avaliar onde a geração está realmente.


Impacto reduzido e pontual

Durante a apresentação à Aneel, Marangon destacou que a maior parte das redes ainda possui baixa ou média penetração de geração distribuída. “Grande parte das redes sequer possui micro ou minigeração”, revelou ele. “Agora, quando a penetração é baixa ou média, a geração próxima à carga traz benefícios, reduz perdas e posterga investimentos”, acrescentou.


Marangon explicou em entrevista ao CanalEnergia que o estudo apontou situações críticas. Entretanto, estas aparecem apenas em cenários de alta penetração em uma faixa de apenas 3% a 4% do total, o que mostra a presença pontual da geração. Contudo, mesmo nessas condições, não foram observadas violações relevantes de restrições elétricas.


“Dessa forma concluímos que, hoje a maior parte das redes não está em alta penetração. Então, condenar a GD por casos extremos não é estatisticamente razoável”, defendeu.


Nesse sentido, o acadêmico e conselheiro admite que nesses casos, podem ser necessários investimentos em proteção, controle de tensão e expansão da transformação. Contudo, ressalta que as soluções de armazenamento reduzem os efeitos nocivos à rede. Ele explica que quando a rede passa a funcionar como coletora de geração surgem inconvenientes, porque ela não foi projetada para isso. Afinal, no passado o fluxo era unidirecional, agora mudou. Porém, continuou ele, esses problemas são resolvidos com investimento, principalmente com baterias, que trazem mais benefícios ao sistema.


Disposição ao diálogo

“Nesses casos de alta penetração vamos sentar e discutir. A gente entende a situação. Vamos analisar os dados e, até falei lá no final da Aneel, de podermos discutir com a distribuidora, mas conhecendo os dados, senão vira uma disputa de narrativas”, analisou. E acrescentou ainda que avalia o papel da Aneel nesse processo como muito complexo. Para ele, o estudo traz uma transparência maior sobre ponto.


Além disso, a entidade também defendeu critérios técnicos adequados na regulação. “Inversão de fluxo não é problema por si só. O correto é analisar tensão, carregamento e qualidade do fornecimento. O tratamento deve ser local, não generalizado”, afirmou Marangon. Para a entidade, a evolução da geração distribuída está associada ao armazenamento estacionário e a utilização da própria bateria dos carros elétricos. “Estamos num processo de transformação com baterias e carregamento de veículos elétricos, o que tende a resolver muitos dos desafios operacionais e atender melhor o consumidor”, concluiu.


Aliás, as baterias não foram o alvo do estudo, mas a avaliação do especialista é a de que esses dispositivos trarão uma revolução em breve ao país. Vale questionar até mesmo o padrão de monopólio natural das distribuidoras, pois quando a bateria avançar as unidades poderão se desligar da rede ao perceber que podem gerenciar seu consumo e uso, diferentemente do uso da rede atual.