{"id":672,"date":"2013-11-25T14:00:00","date_gmt":"2013-11-25T18:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"-0001-11-30T00:00:00","modified_gmt":"-0001-11-30T04:00:00","slug":"RSS-634","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/?p=672","title":{"rendered":"Em: 25\/11\/2013 &agrave;s 14:00h por Canal Energia"},"content":{"rendered":"<p>Foram treze anos de trabalho na Ag&ecirc;ncia Nacional de Energia El&eacute;trica (Aneel); oito dos quais &agrave; frente da diretoria da ag&ecirc;ncia reguladora. Com o sentimento de &ldquo;tempo perdido&rdquo;, Edvaldo Santana deixar&aacute; a Aneel em 22 de dezembro. Com mais empolga&ccedil;&atilde;o, Santana afirma que o tempo como superintendente de Estudos Econ&ocirc;micos de Mercado foi muito mais v&aacute;lido, porque nesta fun&ccedil;&atilde;o, ele p&ocirc;de testemunhar o setor el&eacute;trico avan&ccedil;ar em seus objetivos. J&aacute; na fase como diretor, acredita que muita coisa retrocedeu. E a pergunta que fica &eacute;: ser&aacute; que valeu a pena?<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O engenheiro, nascido em Aracaju (SE), falou sem rodeios sobre pol&ecirc;micas do setor el&eacute;trico, como a Medida Provis&oacute;ria 579, a Resolu&ccedil;&atilde;o CNPE 03, a rela&ccedil;&atilde;o Governo x Aneel, os processos de leil&otilde;es e os novos indicados &agrave; diretoria da ag&ecirc;ncia. Tamb&eacute;m afirmou que a Aneel sempre olha para o consumidor, diferentemente do que os cr&iacute;ticos da ag&ecirc;ncia reguladora dizem. Al&eacute;m de contar um pouco sobre sua trajet&oacute;ria at&eacute; aqui, ressaltou que a independ&ecirc;ncia &eacute; a qualidade mais importante que um futuro diretor deve ter. E apesar dos desgastes, foi algo que lutou muito para conquistar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Com vasta produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica no campo da regula&ccedil;&atilde;o e de mercados de energia el&eacute;trica, o diretor publicou diversos artigos cient&iacute;ficos nacionais e internacionais. Mestre e doutor em Engenharia da Produ&ccedil;&atilde;o pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Edvaldo Santana tamb&eacute;m &eacute; professor licenciado desta universidade. Ali&aacute;s, voltar &agrave;s salas de aula &eacute; o que pretende fazer depois que cumprir seu mandato na Aneel.&ldquo;Vou cansar de dar aula. Se eu parar de trabalhar, eu morro r&aacute;pido. Vou aproveitar o que aprendi aqui para dar mais aula&rdquo;, destacou.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista, concedida com exclusividade &agrave;&nbsp;<strong>Revista GTD Energia El&eacute;trica<\/strong>. A &iacute;ntegra pode ser conferida na vers&atilde;o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.jornaldaenergia.com.br\/revista_online\/ver_revista.php?id_revista=58&amp;largura=1024&amp;altura=768\">online<\/a>.&nbsp;<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Foram oito anos participando do colegiado de diretores da Aneel. Que balan&ccedil;o o senhor faria desse per&iacute;odo em que atuou junto &agrave; diretoria da ag&ecirc;ncia reguladora?<\/strong><br \/>Eu gosto mais do per&iacute;odo anterior a ser diretor, mas o balan&ccedil;o foi positivo, acho que tivemos diverg&ecirc;ncias aqui e acol&aacute;, mas no geral, muito provavelmente na m&eacute;dia, as decis&otilde;es tomadas nesse per&iacute;odo, seja eu como diretor ou n&atilde;o, foram mais corretas do que incorretas, disso eu n&atilde;o tenho a menor d&uacute;vida. Por isso, acho que a Aneel, durante esse per&iacute;odo, deve ter contribu&iacute;do com alguma coisa para o setor el&eacute;trico.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O senhor acha que a regula&ccedil;&atilde;o teve mudan&ccedil;as significativas nesse per&iacute;odo em que esteve na Aneel?<\/strong><br \/>Muito. Eu estou aqui desde 2000, acho que nesses anos, foram tr&ecirc;s ou quatro modelos. Em 2000, era um modelo, que era da lei de 98; depois do racionamento, teve um novo modelo, chamado de &#8220;Revitaliza&ccedil;&atilde;o&#8221;. No Governo Lula, tivemos a Lei Federal 10.848\/2004 (que disp&otilde;e sobre regras de comercializa&ccedil;&atilde;o de energia); e agora, a Medida Provis&oacute;ria 579 (da renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es vincendas at&eacute; 2017 e a redu&ccedil;&atilde;o das tarifas de energia). Pra mim, cada um desses foi um modelo com uma mudan&ccedil;a bastante relevante. Sem contar com as mudan&ccedil;as de detalhes que a pr&oacute;pria Aneel fez.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>MP 579 e CNPE 03 s&atilde;o algumas das medidas com maior repercuss&atilde;o dentro do setor. Alguns agentes acharam um erro, outros conseguiram enxergar algo positivo para o setor el&eacute;trico. H&aacute; quem diga ainda que, por conta de passos impens&aacute;veis como esses pelo governo, a judicializa&ccedil;&atilde;o tomou conta do setor el&eacute;trico. Qual sua opini&atilde;o quanto a isso?<\/strong><br \/>A MP 579 tem um lado bastante positivo, que vai na dire&ccedil;&atilde;o da redu&ccedil;&atilde;o da tarifa e mais positivo ainda &eacute; o fato de permitir a renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o. Para mim, jamais deveria ter qualquer tipo de proibi&ccedil;&atilde;o na renova&ccedil;&atilde;o de concess&atilde;o. &Eacute; irreal n&atilde;o renovar a concess&atilde;o, porque quando a concess&atilde;o acaba, aquela empresa que tinha a concess&atilde;o, acaba. Ent&atilde;o, se ela tinha 10 mil empregados, eles ficam sem emprego, porque para aquela empresa, a concess&atilde;o deixa de existir. Assim, para a economia brasileira, isso &eacute; irreal. Acho que toda concess&atilde;o deve ser renovada, desde que sejam atendidas algumas condi&ccedil;&otilde;es. Para a distribuidora, prestar o servi&ccedil;o com boa qualidade, dado que a tarifa j&aacute; &eacute; reajustada todo ano e revisada a cada quatro anos. No caso da gera&ccedil;&atilde;o, eu faria a mesma coisa: renova, mas &eacute; preciso reduzir a tarifa.&nbsp;<br \/>Se eu tive diverg&ecirc;ncias? Tive e mostrei isso publicamente. Escrevi at&eacute; um artigo para um jornal, mas a diverg&ecirc;ncia foi quanto &agrave; forma. Eu acho que a redu&ccedil;&atilde;o da tarifa deveria ser buscada tamb&eacute;m em leil&otilde;es e tamb&eacute;m n&atilde;o poderia obrigar que todo resultado da redu&ccedil;&atilde;o da tarifa fosse s&oacute; para o ambiente regulado e nada para o ambiente livre. &Eacute; simplesmente dizer: &#8220;olha, voc&ecirc; est&aacute; no ambiente livre e no regulado. Se voc&ecirc; quer vender toda a energia da renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o no ambiente livre, fa&ccedil;a isso, mas vai pagar R$ 50 por MWh para fazer isso para o ambiente regulado&#8221;. Quanto mais o cara vendesse no ambiente livre, mais ele pagaria em dinheiro para o ambiente regulado. Se ele vendesse tudo no ambiente regulado, teria um des&aacute;gio menor. Ou seja, deixaria o mercado fazer a conta e n&atilde;o viria com a conta j&aacute; feita.&nbsp;<br \/>E a outra interven&ccedil;&atilde;o muito grande &eacute; que, na parte de gera&ccedil;&atilde;o, cujo est&iacute;mulo era o mercado, houve um retrocesso, pois voltou a ser custo\/servi&ccedil;o. Ou seja, tudo o que um gerador tiver que fazer, tem que ser autorizado pela Aneel. Vou dar um exemplo: uma usina objeto de cota como Tr&ecirc;s Irm&atilde;os, em fevereiro\/mar&ccedil;o passado, queimou uma das tr&ecirc;s m&aacute;quinas. N&atilde;o &eacute; mais da Cesp, n&atilde;o &eacute; de ningu&eacute;m, vai ter que licitar. O dono da usina est&aacute; gerenciando, simplesmente tirou uma foto do gerador queimado e mandou para a Aneel. O que eu fa&ccedil;o?. Demoramos tr&ecirc;s meses para responder para o cara o que ele fazia, que podia abrir e consertar. Abriu, fez o or&ccedil;amento e disse:&ldquo;Vai custar tanto&#8221;. Vamos demorar mais uns tr&ecirc;s a quatro meses para dizer&ldquo;fa&ccedil;a outro or&ccedil;amento, etc. Antes, n&atilde;o; se queimasse, era problema seu, conserta, voc&ecirc; est&aacute; vendendo no mercado. Ele tinha um incentivo a fazer e pelo menor custo. Esse, pra mim, foi o principal retrocesso. Uma interven&ccedil;&atilde;o muito grande e a gente n&atilde;o vai ter como responder a isso sem tempo h&aacute;bil, ningu&eacute;m tem como responder a tudo isso em tempo h&aacute;bil. A dire&ccedil;&atilde;o est&aacute; correta, mas a forma foi t&atilde;o equivocada que pode haver problema mais adiante.<br \/>Sobre a CNPE 03, muitos criticaram, eu tamb&eacute;m critico quanto &agrave; forma, mas novamente estava na dire&ccedil;&atilde;o correta. Antes de 2007, tudo era feito exatamente como essa resolu&ccedil;&atilde;o mandou fazer: todo despacho de t&eacute;rmica, seja l&aacute; como fosse, era pago por quem n&atilde;o tem contrato, quem est&aacute; exposto. Se a pessoa n&atilde;o tem contrato de longo prazo e precisa despachar t&eacute;rmica, ela est&aacute; no mercado spot, ela paga, ela est&aacute; exposta. Em 2008, final de 2007, saiu uma resolu&ccedil;&atilde;o do CNPE que dizia &ldquo;de agora em diante, n&atilde;o, o despacho de t&eacute;rmica, se n&atilde;o for por ordem de m&eacute;rito, deve ser pago pelo consumidor&rdquo;. Da&iacute; deixou de ser quem estava exposto, a pessoa pode estar exposta como for, quem tem s&oacute; a carga, o gerador deixou de pagar. O problema &eacute; que toda vez que despacha t&eacute;rmica, &eacute; porque voc&ecirc; quer proteger &aacute;gua no reservat&oacute;rio, quem ganha &eacute; o gerador hidrel&eacute;trico que fica com aquela &aacute;gua l&aacute;. Depois, quando ele vende aquela energia com a &aacute;gua que ficou armazenada l&aacute;, o consumidor n&atilde;o ganha nada, &eacute; s&oacute; dele. E isso foi corrigido agora. Novamente, o problema foi a forma, &ldquo;olha vai ser assim porque eu quero assim&rdquo;. Isso precisa ser discutido com todo mundo, &eacute; preciso explicar o porqu&ecirc; da mudan&ccedil;a. Como j&aacute; estava assim h&aacute; cinco anos, n&atilde;o precisava daquela transi&ccedil;&atilde;o com o delta PLD, ela dizia &ldquo;eu vou mudar, vai ser assim&rdquo;, e a maneira como foi feito pra mim foi corret&iacute;ssima. Muito bem feita a CVaR (nova metodologia de avers&atilde;o de risco), os efeitos altamente positivos. Quem t&aacute; pagando &eacute; s&oacute; quem n&atilde;o tem contrato. Muitos est&atilde;o reclamando porque pode ter aumentado a tarifa, porque infelizmente a hora n&atilde;o &eacute; boa, porque o PLD est&aacute; muito alto, mas vai ter uma hora em que o PLD vai estar baixo a&iacute; vem em benef&iacute;cio da tarifa. Ent&atilde;o, novamente, o problema da resolu&ccedil;&atilde;o foi s&oacute; a forma, a dire&ccedil;&atilde;o est&aacute; correta.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Em anos envolvido com o setor el&eacute;trico, o senhor j&aacute; tinha visto tantas liminares e processos na Justi&ccedil;a envolvendo o setor?<\/strong><br \/>Talvez s&oacute; durante o racionamento, naqueles meses de racionamento. Mas em situa&ccedil;&atilde;o normal, jamais.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E o quanto isso tem prejudicado?<\/strong><br \/>Isso sempre prejudica, toda vez que sai do &acirc;mbito administrativo e vai para o &acirc;mbito judici&aacute;rio, isso prejudica a confian&ccedil;a, aumenta o risco regulat&oacute;rio. Se a decis&atilde;o da Justi&ccedil;a for sempre na mesma dire&ccedil;&atilde;o, seja l&aacute; qual for, isso pelo menos mostra que a Justi&ccedil;a tem coer&ecirc;ncia, o que &eacute; uma coisa positiva porque &eacute; ruim um pa&iacute;s em que, por exemplo, a Aneel pudesse fazer tudo e ningu&eacute;m pudesse recorrer &agrave; Justi&ccedil;a. Ou se o minist&eacute;rio pudesse fazer tudo e ningu&eacute;m pudesse recorrer &agrave; Justi&ccedil;a. Acho que a Justi&ccedil;a nessa hora deve atuar como salvaguarda para um lado ou para o outro. As dire&ccedil;&otilde;es das liminares, alguns ganham, outros perdem. Mas &eacute; ruim. Se vai muito para o &acirc;mbito judici&aacute;rio &eacute; porque alguma coisa no ambiente administrativo, que &eacute; o nosso, n&atilde;o est&aacute; funcionando bem.<br \/>H&aacute; tamb&eacute;m quem diga que a demora em definir os diretores das ag&ecirc;ncias reguladoras demonstra certo descaso por parte do governo. O senhor concorda? Acha que deveria haver maior agilidade, j&aacute; que acaba por interferir e at&eacute; atrapalha o trabalho do colegiado? Inclusive, o ex-diretor Juli&atilde;o Coelho, em entrevista, chegou a dizer que &#8220;com apenas tr&ecirc;s diretores, todos t&ecirc;m poder de veto. Todas as decis&otilde;es precisam de unanimidade. Isso contraria a ess&ecirc;ncia de um colegiado, que pressup&otilde;e o exerc&iacute;cio da diverg&ecirc;ncia&#8221;?<br \/>A demora na indica&ccedil;&atilde;o de um diretor de fato fragiliza o nosso trabalho porque cada um de n&oacute;s fica com muito poder. Por exemplo, ocorreram processos que n&atilde;o colocamos na pauta porque s&atilde;o necess&aacute;rios tr&ecirc;s votos. Ent&atilde;o, se n&atilde;o houver tr&ecirc;s votos, para que colocar na pauta? Isso atrasa o ritmo do nosso processo. Basta um divergir para eu n&atilde;o colocar na pauta. Afinal, n&atilde;o vai aprovar porque s&atilde;o necess&aacute;rios tr&ecirc;s votos para aprovar. Da&iacute; de fato tem poder de veto. Votando ou n&atilde;o. Mas quanto ao descaso, &eacute; dif&iacute;cil indicar dois diretores, um a um j&aacute;&eacute; dif&iacute;cil, dois diretores mais dif&iacute;cil ainda para uma ag&ecirc;ncia t&atilde;o importante como a Aneel. Ent&atilde;o, h&aacute; as discuss&otilde;es pol&iacute;ticas, mas acho que isso deveria ser evitado. Eu, por exemplo, saio em 22 de dezembro, ent&atilde;o o ideal &eacute; que na v&eacute;spera j&aacute; se saiba quem vai ficar no meu lugar. Porque a Aneel n&atilde;o pode ficar sem diretor. A rigor, acho que se analisarmos o que diz a lei da Aneel desde o in&iacute;cio, era como se estivesse sendo praticado agora uma ilegalidade. Jamais deveria haver tr&ecirc;s diretores entrando na Aneel praticamente ao mesmo tempo. Haver&aacute; s&oacute; dois diretores antigos e tr&ecirc;s novos entrando. E isso &eacute; ruim, at&eacute; que essas pessoas entendam o ritmo. N&atilde;o era assim que estava na lei, nem da Anatel, nem da ANP. Tanto que na primeira diretoria da Aneel, um diretor teve tr&ecirc;s anos, dois diretores tiveram quatro anos e um outro teve cinco anos. Era para sempre ocorrer esse rod&iacute;zio. Era para ter tr&ecirc;s pessoas com mais de tr&ecirc;s anos aqui dentro. A coisa originalmente era muito bem feita, muito bem pensada. E isso n&atilde;o est&aacute; sendo cumprido. Quando entrei aqui, tamb&eacute;m eram tr&ecirc;s diretores durante oito meses, esse per&iacute;odo agora ser&aacute; menor. E isso realmente &eacute; ruim para uma ag&ecirc;ncia que tem tanto trabalho como a Aneel. Mas n&atilde;o acho que seja descaso. Deve ser, talvez, um pouco de falta de cuidado. Falta de um pouco de aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Ser diretor da Aneel n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil, afinal, existem casos que requerem muito conhecimento e entendimento do assunto. Se pudesse definir ou escolher qualidades para um diretor assumir seu lugar, o que destacaria?<\/strong><br \/>Acho que um diretor da Aneel deve ter alguns atributos importantes. Primeiro, bastante conhecimento t&eacute;cnico do assunto, do setor el&eacute;trico. Segundo, bastante conhecimento do que &eacute; regula&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o adianta vir pra c&aacute; um excelente engenheiro sem saber o que &eacute; regula&ccedil;&atilde;o. Se ele n&atilde;o sabe o que &eacute;, dificilmente vai conseguir aprender a cultura do regulador, que &eacute; um pouco diferente. Por mais experiente que seja a pessoa. E a terceira &eacute; lutar pela independ&ecirc;ncia, que &eacute; muito dif&iacute;cil. Todo mundo &eacute; indicado pelo governo, e queira ou n&atilde;o queira, tem uma interfer&ecirc;ncia pol&iacute;tica para indicar a pessoa. Ent&atilde;o, manter a independ&ecirc;ncia num ambiente desse &eacute; muito dif&iacute;cil. E a gente aqui enfrentou momentos bastante dif&iacute;ceis. Antes da mudan&ccedil;a do governo Lula, pr&eacute;-governo, n&oacute;s tivemos reuni&otilde;es aqui na Aneel, j&aacute; com o governo eleito, de acabar com a ag&ecirc;ncia. Dois anos depois, falaram que n&atilde;o ia acabar e que n&atilde;o sobreviveria sem ag&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, nesse ambiente, voc&ecirc; continuar ali e mostrar independ&ecirc;ncia &eacute; dif&iacute;cil. A independ&ecirc;ncia &eacute; muito importante, faz total diferen&ccedil;a a ag&ecirc;ncia ser ou n&atilde;o independente. Sobretudo em um pa&iacute;s como o Brasil, que precisa de muitos investimentos privados. Se a ag&ecirc;ncia mostra alguma fragilidade nessa dire&ccedil;&atilde;o da independ&ecirc;ncia, os empreendedores percebem isso rapidamente e podem mudar qualquer decis&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o de press&otilde;es do governo, press&otilde;es pol&iacute;ticas. Isso &eacute; ruim. Ent&atilde;o, &eacute; uma caracter&iacute;stica de quem vem para c&aacute; mostrar que &eacute; independente. Eu, por exemplo, sofri diversos desgastes. Se eu tenho algum dos outros atributos, foi porque estudei muito. Mas antes mesmo de se falar em ag&ecirc;ncia reguladora, eu acho que fui o primeiro pesquisador a ter uma bolsa do CNPQ para estudar o que era regula&ccedil;&atilde;o. Tive um projeto de pesquisa aprovado pelo CNPQ sobre regula&ccedil;&atilde;o, e regula&ccedil;&atilde;o no setor el&eacute;trico brasileiro. Nem se falava em ag&ecirc;ncia. Portanto, eu estudei muito. Se entrar no site e digitar &ldquo;Edvaldo Santana&rdquo; e &ldquo;Regula&ccedil;&atilde;o&rdquo;, voc&ecirc; ver&aacute; v&aacute;rios artigos nacionais e estrangeiros. Trabalhei minha vida inteira no setor e orientei mais de 40 teses de doutorado, a maioria sobre regula&ccedil;&atilde;o, sobre o setor el&eacute;trico. N&atilde;o que todo mundo tenha que ter isso, mas ter pelo menos esse perfil para ser assim &eacute; essencial. Ent&atilde;o, s&atilde;o estes: ter bastante conhecimento t&eacute;cnico, bastante conhecimento sobre regula&ccedil;&atilde;o e olhar muito a independ&ecirc;ncia. Se tiver esses tr&ecirc;s, est&aacute; bom. N&atilde;o vai me perguntar se os [diretores] que v&ecirc;m a&iacute; t&ecirc;m essas caracter&iacute;sticas, porque eu n&atilde;o sei (risos).<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E o senhor tamb&eacute;m defende a inclus&atilde;o de mais t&eacute;rmicas na matriz energ&eacute;tica. Acredita que traz benef&iacute;cios ao consumidor, mesmo ele tendo que arcar com um valor a mais nas contas de energia?<\/strong><br \/>Eu at&eacute; acho que se n&atilde;o tem hidrel&eacute;trica, tem que ter termel&eacute;trica. Mas o que eu defendo mesmo &eacute; bastante hidrel&eacute;trica, e hidrel&eacute;trica com reservat&oacute;rio. Se n&atilde;o tem hidrel&eacute;trica com reservat&oacute;rio, n&oacute;s n&atilde;o temos outra sa&iacute;da sen&atilde;o t&eacute;rmicas e e&oacute;licas. Mas eu acho que termel&eacute;trica no Brasil deveria ser sempre complementar, mas defendo as usinas hidrel&eacute;tricas com grandes reservat&oacute;rios.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>A forma como s&atilde;o realizados os leil&otilde;es tamb&eacute;m tem gerado discuss&otilde;es. O senhor chegou a comentar que a f&oacute;rmula dos leil&otilde;es est&aacute; muito repetitiva h&aacute; anos e que deveria ser mudada. O que poderia ser diferente?<\/strong><br \/>O leil&atilde;o de transmiss&atilde;o, por exemplo, fazemos desde 2000. Fizemos pequenas mudan&ccedil;as. Hoje, reclamamos que os leil&otilde;es j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m os mesmo des&aacute;gios que tinham h&aacute; dois ou tr&ecirc;s anos. Primeiro, porque quem est&aacute; disputando os leil&otilde;es s&atilde;o sempre os mesmos, uns contra os outros e &agrave;s vezes se juntam. Tem empresa que participa uma hora com um grupo, outra hora com outro grupo, depois junta e se mistura tudo. Logo um conhece a estrat&eacute;gia do outro. Como uns conhecem as estrat&eacute;gias dos outros, o leil&atilde;o n&atilde;o pode ser o mesmo sempre. O que eu acho que deve mudar: por exemplo, dizem que o grande problema da pouca atra&ccedil;&atilde;o dos leil&otilde;es &eacute; o WACC (Custo M&eacute;dio Ponderado de Capital, em portugu&ecirc;s). Ent&atilde;o, &eacute; feito um leil&atilde;o em que um dos objetos &eacute; essa taxa. Ou seja, ganha o leil&atilde;o quem aceitar a menor taxa, por exemplo. Eu gosto muito do mercado, e tudo fica por conta do mercado e assim &eacute; que vai. E a partir dessa taxa, calcula-se a receita e por a&iacute; vai. Tem como fazer leil&otilde;es diferentes. N&atilde;o &eacute; bom estar mudando muito, mas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; bom permanecer com o mesmo leil&atilde;o por dez anos e n&oacute;s j&aacute; estamos com o mesmo h&aacute; 13\/14 anos. Para a gera&ccedil;&atilde;o &eacute; a mesma coisa, &eacute; s&oacute; pre&ccedil;o decrescente, &eacute; um pre&ccedil;o-teto. Todo mundo aprende e fragiliza, o certame fica vulner&aacute;vel. H&aacute; press&otilde;es de todo tipo, se ele &eacute; sempre o mesmo. Isso &eacute; um princ&iacute;pio b&aacute;sico. S&oacute; leil&atilde;o de obra de arte &eacute; sempre o mesmo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Qual forma de gera&ccedil;&atilde;o de energia deveria ter mais apoio do Governo ou incentivo nos leil&otilde;es, que o senhor considera deficiente?<\/strong><br \/>Talvez as PCHs hoje tenham ficado em segundo plano, dados os avan&ccedil;os das usinas e&oacute;licas. Os pre&ccedil;os ca&iacute;ram tanto das e&oacute;licas que as PCHs perderam espa&ccedil;o. Portanto, eu acho que o governo poderia incentivar um pouco mais as PCHs, quem sabe realizando leil&otilde;es com demanda espec&iacute;fica. Acho que n&atilde;o devemos menosprezar o potencial. Hoje, o potencial brasileiro hidrel&eacute;trico de gera&ccedil;&atilde;o com &aacute;gua em PCHs &eacute; de mais de 15 mil MW. E pra se produzir isso, algu&eacute;m tem que investir para ganhar dinheiro para construir outra. Ent&atilde;o, acho que isso n&atilde;o &eacute; desprez&iacute;vel, acho que tem que incentivar um pouco mais. N&atilde;o &eacute; s&oacute; uma disputa entre e&oacute;lica e PCH por pre&ccedil;o, porque enquanto continuar assim, as PCHs sempre perder&atilde;o. Tem que criar um pouco mais de demanda para incentivar um pouco mais. N&atilde;o precisa criar um pre&ccedil;o-teto maior, &eacute; ter uma demanda espec&iacute;fica para PCHs, como tem demanda espec&iacute;fica para UHE. Acho que isso o governo poderia fazer, incentivar um pouco mais. Ou seja, hoje, acredito que a fonte que mais precisa de incentivo &eacute; as PCHs.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Pela fala dos agentes, a impress&atilde;o que se tem &eacute; de que o governo Dilma dialoga menos com o setor do que seus antecessores. O senhor concorda?<\/strong><br \/>Acho que sim, mas cada governo tem a sua caracter&iacute;stica, um governo sempre mais &agrave; esquerda, cujo foco no in&iacute;cio era mais contra o mercado, contra aquilo que estava antes. Era natural que fosse assim. Eu n&atilde;o sei se mais que do que os antecessores de curto prazo, os &uacute;ltimos eu acho que sim. Mas eu n&atilde;o sei se isso afeta muito o resultado naquilo que &eacute; mais relevante, porque, &agrave;s vezes, perde-se muito tempo conversando e n&atilde;o se chega a resultado algum. Mas uma coisa: para aquilo que &eacute; mais importante, como foi, por exemplo, a lei 10.848, que foi a primeira mudan&ccedil;a positiva do governo Lula, j&aacute; se conversou muito. J&aacute; na mudan&ccedil;a seguinte, a MP 579, houve pouca conversa, ent&atilde;o o resultado &eacute; completamente diferente. Na Resolu&ccedil;&atilde;o n&ordm; 3 do CNPE, n&atilde;o houve conversa com ningu&eacute;m, o resultado &eacute; diferente. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; preciso conversar sobre tudo, mas para aquilo que &eacute; muito relevante, tem que conversar e conversar muito. Nisso, o governo atual &eacute; bastante diferente dos anteriores. N&atilde;o precisa colocar tudo em audi&ecirc;ncia p&uacute;blica, mas &eacute; bom conversar com muita gente. Chega-se sempre a um melhor resultado quando se ouve mais gente.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Se pudesse fazer algo diferente em algum momento como diretor da Aneel, o que teria feito?<\/strong><br \/>Com toda a sinceridade, apesar de eu ter feito aqui tudo o que eu podia ter feito, acho que nem fazer o melhor, acho que eu fiz tudo o que eu podia ter feito. Mas se eu pudesse voltar atr&aacute;s, eu n&atilde;o teria sido diretor da Aneel. Meu melhor per&iacute;odo aqui foi como superintendente. Eu acho que, apesar de tudo que eu fiz, &eacute; prov&aacute;vel que eu tenha perdido um pouco de tempo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Mas por qu&ecirc;?<\/strong><br \/>N&atilde;o sei, acho que dos grandes avan&ccedil;os que conseguimos, os retrocessos recentes foram t&atilde;o grandes que superaram os avan&ccedil;os. Ent&atilde;o, acredito que perdemos 14 anos em tr&ecirc;s ou quatro anos em termos de inefici&ecirc;ncia. Mas acho que a coisa tende a ficar muito ineficiente. Ent&atilde;o, eu confesso que fico um pouco triste de ter, como diretor, convivido com esse per&iacute;odo. Eu gostava mais dos per&iacute;odos anteriores em que &iacute;amos s&oacute; para a frente. Acho que retrocedemos bastante, em termos de tudo, inclusive de independ&ecirc;ncia da ag&ecirc;ncia. A ag&ecirc;ncia ficou bem menos independente nos &uacute;ltimos tempos. E se &eacute; certo ou errado? Talvez pelo perfil do governo seja at&eacute; mais certo para que as coisas aconte&ccedil;am. Mas se &eacute; pra ser menos independente ou quase n&atilde;o ter independ&ecirc;ncia, n&atilde;o precisa da ag&ecirc;ncia. Um departamento do minist&eacute;rio faz muito bem. (Voc&ecirc; n&atilde;o esperava essa &uacute;ltima resposta, n&atilde;o &eacute;?). Se pudesse voltar atr&aacute;s eu n&atilde;o&#8230; Ou n&atilde;o teria sido reconduzido, ficaria s&oacute; nos primeiros quatro anos. Mas a sensa&ccedil;&atilde;o &eacute; de que&ldquo;Puxa, ser&aacute; que depois daquela luta toda, valeu a pena?&rdquo;. Valeu por tudo que fiz, mas se for no l&iacute;quido, d&aacute; empate. E se d&aacute; empate, parece perda de tempo, n&atilde;o &eacute;? Ent&atilde;o, tem que andar sempre para a frente, embora, &agrave;s vezes, para andar para a frente, seja preciso recuar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O que o senhor far&aacute; ap&oacute;s deixar a Aneel? Pretende voltar a dar aula ou vai se aposentar?<\/strong><br \/>A minha pretens&atilde;o &eacute; voltar para o meio acad&ecirc;mico, vou cansar de dar aula. N&atilde;o pretendo me aposentar, acho que vou trabalhar at&eacute; quando estiver perto de morrer (risos). Se eu parar de trabalhar, eu morro r&aacute;pido. Vou aproveitar o que aprendi aqui para dar mais aula.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram treze anos de trabalho na Ag&ecirc;ncia Nacional de Energia El&eacute;trica (Aneel); oito dos quais &agrave; frente da diretoria da ag&ecirc;ncia reguladora. Com o sentimento de &ldquo;tempo perdido&rdquo;, Edvaldo Santana deixar&aacute; a Aneel em 22 de dezembro. Com mais empolga&ccedil;&atilde;o, Santana afirma que o tempo como superintendente de Estudos Econ&ocirc;micos de Mercado foi muito mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/672"}],"collection":[{"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/sindenergia.com.br\/seminario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}